Prisões Psicológicas e Práticas de Libertação

Por Sandra Sant´Ana


Prisões psicológicas surgem diante do caos no mundo, no movimento ininterrupto de exigências a padrões estabelecidos por uma sociedade doente, juntamente com tentativas frustradas do ser humano para superar limites emocionais que levam ao desgaste mental.

Elas podem ter início já na infância quando a expressão da criança é tolhida cruelmente, de modo que ela tenha que suprimir a sua natureza para se adaptar ao meio social em que vive.

As mudanças rápidas do mundo capitalista, associadas ao ajuste forçado do homem ao sistema, podem trazer uma sensação de inadaptação para aqueles que não conseguem acompanhar tais exigências.

Sabemos que, no decorrer da vida, há esforço para atingir objetivos, alcançar êxito e ser feliz.

Todo ser humano busca ser feliz, mesmo os que nada fazem. Não fazer nada também é uma modo de ação para buscar a felicidade em que se acredita.

Importante lembrar que nessa busca, somente o autoconhecimento e o despertar para quem somos fará a trajetória da vida mais significativa, sem os véus da ilusão que tanto confundem a visão.

Existem práticas de libertação para essa prisão?

Sim, mas todo ser humano é singular em sua jornada, dessa forma, as práticas podem diferir de uma pessoa para outra. Não podemos afirmar que uma prática única sirva para todos.

Contudo, quando identificamos nossa natureza e agimos naturalmente, apesar dos padrões estabelecidos pelo ambiente externo, podemos dizer que nos libertamos.

Mesmo diante da singularidade, quando a existência não é observada como processo integrado na universalidade, a doença social se perpetua. Podemos ressaltar dois aspectos. No primeiro, a concepção “auto mundana” pode ser entendida como algo próprio do nosso “mundo interno”, que diz respeito à busca material, como uma convenção social inserida como parte de nós (crença limitante).

O contrário também pode acontecer, quando se percebe que a concepção “auto mundana” vai esvaecendo, perdendo a intensidade, a dualidade vai se apagando e a universalidade se torna parte integrante e consciente da existência humana.

E o yoga como prática de libertação e parte integradora do processo da universalidade? E no Brasil, o yoga é reconhecido como prática libertadora?

O yoga como prática de libertação pode possibilitar o autoconhecimento e a consciência universal. No Brasil, por alguns praticantes é reconhecido como libertador mas para uma outra parte da população, é considerada como prática complementar em trabalhos voltados à saúde integral. A mídia brasileira geralmente mostra mais os benefícios físicos.

Aos poucos, observa-se a inserção do yoga em escolas e instituições. Essa prática milenar vem encantando famílias inteiras que a compartilham, hospitais conceituados que já a incluíram como terapia complementar para proporcionar o bem estar de pacientes e o universo corporativo, incluindo o yoga nos programas de qualidade de vida no meio empresarial.

Essa inclusão do yoga em ambientes diversificados é algo benéfico, mas também devemos ter um olhar atento para que a tradição milenar do yoga não se descaracterize e se perca em invenções ocidentais que priorizam somente os aspectos físicos da prática. Importante ressaltar que o yoga excede às cercas dos aspectos físicos, se estendendo também para saúde mental.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, saúde mental é um estado de bem estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a comunidade (Fonte: Pense SUS).

Essa definição é ainda um pouco rasa, pois saúde mental vai além. Saúde mental é também integrar corpo, mente e espírito. Saúde Mental é consciência e paz interior da infância à fase adulta.

Essa paz interior que tantos buscam, é algo fácil de encontrar?

Vale aqui uma reflexão sobre a ansiedade que nos impede de alcançar essa paz tão procurada. A preocupação excessiva em relação a algo que ainda não aconteceu é um dos sintomas da ansiedade. Ela pode aparecer devido aos conflitos psicológicos e inseguranças.

O pavor que situações futuras não atendam às expectativas leva a pensamentos negativos e descontrole do fluxo de pensamentos. Esses processos influenciam no corpo físico e mente, fazendo com que a respiração e os batimentos cardíacos sejam afetados.

Geralmente, a procura pelo yoga no Ocidente é proveniente do estresse desses buscadores. A ansiedade não é algo comum só aos adultos.

A ansiedade também pode fazer parte da infância de uma criança estressada com a vida que leva e assim podemos entender que essa ansiedade pode interferir no equilíbrio físico, mental, familiar, escolar, social e pedagógico.

No corpo, segundo o médico e psicanalista Wilhelm Reich, pode haver couraças nas tensões musculares. Há também a couraça de caráter que, de modo simplificado, podemos dizer que se caracteriza em uma defesa contra sentimentos e medo de punição.

A cada couraça do ego, pode existir uma couraça muscular, onde aspectos físicos e aspectos emocionais estão interligados.

O yoga – a prática física juntamente com diálogos internos – pode fazer com que o praticante na realização dos asanas (posturas) “dissolva” essa rigidez muscular, dando espaço para um corpo mais saudável e uma mente mais tranquila, pois corpo e mente são indissociáveis.

A palavra “pode” é de grande importância nesse contexto, pois é importante lembrar que o yoga não é uma prática para tornar as pessoas boazinhas e sim para que elas descubram a própria natureza.

Na história mundial, profissionais de diversas áreas, como militares, atores, esportistas entre outros, já utilizaram o yoga para questões de desenvolvimento de atenção plena, saúde mental, bem estar físico, para vivenciarem suas funções com mais foco, alcançando resultados positivos.

Mas há ainda os que buscam a espiritualidade dentro do yoga. Um ponto fundamental nesse assunto é que somente a prática de asanas com as intenções mais diversas possíveis, não irá espiritualizar esses praticantes.

A espiritualidade é um processo extrafísico, de harmonização com o universo, e para isso, a pessoa há de se vivenciar experiências mais sutis de consciência.




Retirado em 15/03/18 de http://paramparayogafestival.com.br/prisoes-psicologicas-e-praticas-de-libertacao/

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